A religião é o ópio do povo: por que essa frase é tão mal interpretada?
- Geovanildo Luiz da Silva
- 19 de jan.
- 17 min de leitura

1) De onde vem a frase “A religião é o ópio do povo” e por que ela virou um bordão
Poucas frases atravessaram tantos debates, tantas brigas ideológicas e tantas timelines quanto “A religião é o ópio do povo”. Ela é repetida como martelo: às vezes para atacar a fé, às vezes para defender o cristianismo, às vezes para “lacrar” em discussões políticas e, em muitos casos, simplesmente para encerrar uma conversa com aparência de profundidade. Mas o fato é que o maior motivo de essa frase ser tão mal interpretada é simples: quase ninguém a lê no lugar em que foi escrita, nem entende por que Marx escolheu exatamente essa metáfora.
A expressão aparece na obra de Karl Marx chamada Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, escrita em 1844. É importante dizer isso logo no início por um motivo de SEO e de honestidade intelectual: quando alguém pesquisa “A religião é o ópio do povo”, geralmente não está procurando apenas uma opinião, mas o sentido original, o contexto, e o “por trás da frase”. A pessoa quer descobrir se Marx estava dizendo que a religião é uma mentira ou se havia algo mais sofisticado ali. E havia. Só que para enxergar isso, é preciso dar dois passos para trás.
O contexto histórico do século XIX
Antes de qualquer coisa, precisamos lembrar que o século XIX não foi uma sala de aula com cadeiras arrumadas e discussão abstrata. Foi um período marcado por industrialização acelerada, pobreza urbana, jornadas exaustivas, exploração de trabalhadores e uma desigualdade muito mais visível do que a que muitos imaginam hoje. Nesse cenário, a palavra “religião” não era apenas uma questão íntima ou espiritual. Ela estava profundamente ligada a estruturas sociais: Estado, moral pública, hierarquias e controle cultural.
Então, quando Marx fala de religião, ele não está falando apenas de alguém que ora, lê a Bíblia ou busca Deus por fé sincera. Em grande parte, ele está pensando na religião enquanto fenômeno social: a religião como linguagem pública, como tradição dominante, como discurso que molda o que as pessoas aceitam como “normal”.
Isso é crucial para entender o que significa chamar a religião de ópio do povo. Porque, na cabeça moderna, “ópio” tende a significar “droga” no sentido recreativo, destrutivo e criminoso. Só que no século XIX, o ópio também era visto como algo diferente: um analgésico, um calmante usado para aliviar a dor. Em outras palavras, Marx não escolheu a palavra “ópio” apenas para humilhar o religioso. Ele escolheu porque queria dizer: “isso alivia, conforta… mas também pode entorpecer”.
E aqui começa o primeiro grande problema das interpretações atuais: a frase foi arrancada do tempo e jogada no nosso tempo, como se significasse exatamente a mesma coisa.
O que Marx escreveu antes e depois da frase
A frase é quase sempre citada sozinha, e esse é o segundo problema. Porque o trecho completo muda muito a leitura. Marx afirma que a miséria religiosa tem uma dupla natureza: ela é expressão da miséria real e também protesto contra a miséria real. Isso coloca a religião num lugar ambíguo: ela não é só “alienação”, mas também “clamor”. Não é só “erro”, mas também “sintoma”.
Em outras palavras, Marx admite algo que muitos ignoram: a religião nasce, muitas vezes, como resposta humana ao sofrimento. É como se ele dissesse: “se a vida fosse plenamente justa, se as pessoas fossem plenamente dignas, se o mundo tivesse coração… talvez elas não precisassem desse tipo de consolo”.
E é aqui que a discussão ganha profundidade. Porque quando alguém repete “a religião é o ópio do povo”, geralmente está querendo dizer: “religião é enganação”. Só que Marx está trabalhando com uma lógica social: ele está olhando para a dor coletiva e perguntando como a sociedade produz mecanismos para tornar a dor suportável sem resolver suas causas.
Dito de forma bem direta: Marx não está dizendo apenas que a religião é falsa. Ele está dizendo que ela funciona como alívio — e que isso pode ser usado para manter as pessoas quietas enquanto tudo continua igual.
Por que a internet recorta frases e muda sentidos
Hoje, o ambiente perfeito para uma frase ser mal interpretada é a internet. Porque a lógica das redes não é “entendimento profundo”. É “frase de efeito”. E “A religião é o ópio do povo” é uma frase curta, forte, provocativa, com impacto emocional imediato. Ou seja: perfeita para virar legenda, tweet, corte de podcast, comentário polêmico. Ela se encaixa no tipo de discurso que ganha curtidas sem exigir contexto.
E o resultado disso é previsível. A frase vira um símbolo de guerra cultural. Um lado repete a frase como ataque ao cristianismo e à fé. O outro lado reage dizendo que Marx odeia Deus e quer destruir a igreja. Só que, ironicamente, os dois lados costumam errar, porque ambos estão tratando a frase como slogan e não como diagnóstico.
A melhor prova de que ela é mal interpretada é simples: existem pessoas profundamente religiosas que concordam com a crítica de Marx em parte, e existem pessoas antirreligiosas que simplificam Marx de forma rasa. Isso mostra que o debate real não é “crer ou não crer”, mas compreender que Marx está falando sobre função social.
E aqui entra uma pergunta que muda tudo: Marx estava criticando Deus… ou criticando o uso social da religião? Essa pergunta, por si só, já separa leitura superficial de leitura séria.
A frase “A religião é o ópio do povo” virou bordão justamente porque é forte — mas é mal interpretada porque é recortada.

Se você quer entender sem distorções o que significa “A religião é o ópio do povo”, no próximo tópico nós vamos entrar na parte mais importante: o que Marx quis dizer de verdade, por que ele fala de “consolo” e “anestesia”, e por que isso ainda mexe com debates sobre religião até hoje.
✅ Continue lendo o próximo tópico para ver a explicação completa — sem simplificação e sem briga ideológica.
2) O que Marx quis dizer de verdade: “ópio do povo” como consolo, protesto e anestesia
Se existe um erro que faz a frase “A religião é o ópio do povo” ser repetida de forma injusta, é o seguinte: tratar essa frase como se fosse apenas um insulto. Como se Marx estivesse dizendo “religião é droga” e ponto final. Só que, quando olhamos o texto com atenção — e principalmente quando enxergamos o século XIX como ele era — a frase ganha outra profundidade.
Marx escolheu palavras muito fortes, sim. Mas ele também escolheu palavras muito humanas. E é por isso que esse trecho continua vivo: ele não fala apenas de ideias, ele fala de dor, de consolo, de esperança, de um mundo que machuca pessoas.
A frase central aparece em 1844, em sua Crítica da Filosofia do Direito de Hegel, e ela vem acompanhada de um raciocínio que quase sempre é omitido nas discussões de internet. Marx escreve (em tradução fiel ao sentido):
“A miséria religiosa é, ao mesmo tempo, a expressão da miséria real e o protesto contra a miséria real.A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, o espírito de uma situação sem espírito.Ela é o ópio do povo.”
Esse trecho sozinho já mostra algo essencial: Marx não está descrevendo a religião apenas como engano, mas como um fenômeno social com dupla face. Ela nasce de algo real, responde a algo real, e aponta para algo real.
E isso muda tudo.
Ópio como remédio e não apenas vício
Hoje, quando alguém escuta a expressão “ópio do povo”, imagina algo como dependência química, crime, vício e destruição. Só que no século XIX, o ópio tinha outro lugar cultural. Ele era usado como analgésico, como sedativo, como remédio para dores intensas. Uma substância que “resolve” o sofrimento no nível da sensação — mas não toca na raiz do problema.
É exatamente essa a lógica da metáfora.
Marx está dizendo que a religião age como um anestésico social: ela pode tornar o sofrimento suportável, sem necessariamente transformar as condições que geram sofrimento. E aqui vale uma observação importante: isso não é apenas uma crítica à religião como “instituição”. É, antes de tudo, uma crítica à realidade social que produz sofrimento em massa. Marx está olhando para a dor humana e percebendo uma função:
Se a vida está esmagando a pessoa, ela precisa de algo que a sustente.
Se o mundo não oferece sentido, a mente busca sentido.
Se a sociedade não dá justiça, a alma procura esperança.
Nesse ponto, o diagnóstico de Marx é forte porque é plausível. É por isso que a frase atravessa séculos: ela não é só ofensiva, ela é observacional.
E isso explica por que essa frase incomoda tanto. Porque ela mexe numa pergunta que ninguém gosta de responder com sinceridade:
A religião que eu vivo desperta minha consciência… ou anestesia minha dor?
Nem todo cristão quer encarar isso. E nem todo ateu quer admitir que Marx estava falando de algo mais complexo do que “religião é mentira”.
A religião como “suspiro” e “coração de um mundo sem coração”
Essa é a parte do texto que quase nunca aparece em memes, cortes e discussões. E é justamente a parte que mostra que a frase não é apenas agressiva. Ela é, paradoxalmente, quase compassiva.
Marx chama a religião de:
“suspiro da criatura oprimida”
“coração de um mundo sem coração”
“espírito de uma situação sem espírito”
Essas expressões são carregadas de humanidade. Um “suspiro” não é uma teoria. É uma reação emocional de quem está no limite. “Coração” é aquilo que dá vida. “Espírito” é aquilo que faz a existência não parecer vazia.
O que Marx está dizendo, na prática, é algo assim:
“As pessoas sofrem. O mundo é duro. A vida é injusta. E a religião aparece como resposta à ausência de coração nesse mundo.”
Perceba: ele não está descrevendo apenas um erro lógico. Ele está descrevendo uma necessidade existencial.
A religião, nesse raciocínio, funciona como um lugar onde o ser humano:
encontra um sentido para continuar vivo,
transforma dor em oração,
interpreta injustiça como prova,
imagina que o futuro pode ser melhor,
cria um horizonte de esperança além do presente.
Isso é o “ópio” no sentido de “alívio”. E não é um alívio desprezível. É um alívio real, que segura muita gente quando tudo desaba.
Mas é exatamente aí que Marx vê o perigo: quando esse alívio vira substituto de mudança.
A crítica às estruturas, não só à fé
Aqui está o núcleo do pensamento. Quando Marx diz “A religião é o ópio do povo”, ele não está fazendo apenas uma crítica religiosa. Ele está fazendo uma crítica social, econômica e política.
Ele considera que a religião pode funcionar como um mecanismo que torna o sofrimento tolerável. E isso, por sua vez, pode ter um efeito colateral: reduzir a urgência por transformação social.
E Marx deixa isso ainda mais explícito quando escreve, logo depois do trecho famoso, algo que também é muito citado por estudiosos, mas pouco conhecido pelo público geral:
“A abolição da religião enquanto felicidade ilusória do povo é a exigência de sua felicidade real.”
E continua:
“Exigir que abandonem as ilusões sobre sua condição é exigir que abandonem uma condição que necessita de ilusões.”
Aqui a ideia fica cristalina: o alvo principal da crítica é uma sociedade que fabrica condições tão desumanas que as pessoas precisam de “ilusões” para sobreviver. Marx não está satisfeito em dizer “pare de crer”. Ele está dizendo: “mude o mundo que força a pessoa a se agarrar a isso”.
Esse ponto é importantíssimo para entender por que a frase é tão mal interpretada. Porque a maioria das pessoas a usa como se Marx estivesse dizendo:
✅ “Religião é mentira. Pessoas religiosas são tolas.”
Mas Marx está mais perto de estar dizendo:
✅ “A religião surge porque o sofrimento é real. A questão é: por que há tanta miséria que exige consolo?”
Ou seja: a frase é mais crítica ao sistema do que ao indivíduo.
Quando “ópio do povo” vira uma crítica justa — e quando vira caricatura
Agora, trazendo isso para o presente, é impossível fugir do elefante na sala: existem formas de religião que parecem confirmar a crítica de Marx.
Por exemplo:
Uma religião que manda o pobre aceitar tudo e “não reclamar”.
Uma religião que promete céu como recompensa para aguentar injustiça aqui.
Uma religião que chama exploração de “plano de Deus”.
Uma religião que usa o medo como ferramenta de submissão.
Uma religião que domestica a consciência e transforma Jesus em amuleto.
Nesses casos, a religião pode se tornar aquilo que Marx denuncia: um anestésico moral e social.
Só que existe um problema sério quando essa crítica vira generalização. Porque também existe outra religião — e o próprio Evangelho deixa isso claro.
Existe uma religião que:
confronta injustiça,
denuncia hipocrisia,
protege o fraco,
expõe líderes falsos,
chama o povo para responsabilidade.
E quem fez isso com uma força sem precedentes foi Jesus.
Então o debate real fica mais maduro quando a pergunta deixa de ser “Marx odeia religião?” e passa a ser:
Que tipo de religião está em jogo aqui?
Porque nem toda religião anestesia. Algumas despertam.
A religião como anestesia vs. a religião como despertar
Aqui você encontra uma linha divisória que organiza todo o debate de forma honesta:
1) Religião como anestesia (ópio do povo). Ela alivia o sofrimento sem tocar nas causas, oferece consolo sem justiça e transforma a fé em fuga.
2) Religião como despertar. Ela alivia o sofrimento, mas também denuncia o pecado estrutural, move o indivíduo para a verdade e transforma a fé em missão.
Marx está atacando principalmente o primeiro tipo. E o Evangelho também.
Isso pode soar provocativo, mas é coerente com o próprio Jesus, que foi duro com a religião vazia, mecânica e manipuladora.
Ou seja: a frase de Marx, quando bem compreendida, não é apenas anti-religião. Ela é uma acusação contra toda fé que serve para manter gente sofrendo em silêncio.
Marx não critica a fé como necessidade espiritual apenas — ele critica a função social da religião quando ela se torna anestesia diante da injustiça.

Se essa parte já mudou sua leitura da frase “A religião é o ópio do povo”, o próximo tópico é o mais atual e necessário: por que essa frase continua sendo mal interpretada hoje, quais são as leituras erradas mais comuns e como teólogos cristãos responderam a Marx — inclusive com uma lente bem clara do Evangelho.
3) Por que essa frase é tão mal interpretada hoje (e por que isso interessa até a cristãos)
A frase “A religião é o ópio do povo” é uma daquelas expressões que já chegam na conversa “com sangue nos olhos”. Ela não entra como análise: entra como ataque. Ela não aparece como pergunta: aparece como sentença. E é exatamente por isso que ela é tão mal interpretada hoje.
Porque, na prática, muita gente não usa essa frase para entender Marx. Usa para vencer um debate.
E o problema, quando uma frase vira arma, é que ela perde o significado original e ganha um novo: o significado emocional. E aí não importa o que Marx realmente escreveu. Importa o que a frase faz as pessoas sentirem.
Ela provoca raiva. Provoca ironia. Provoca defesa. Provoca superioridade. E quando uma frase provoca tudo isso, ela quase sempre vira uma caricatura do que deveria ser: um diagnóstico.
Só que esse tema interessa até a cristãos por um motivo sério: a crítica de Marx não é apenas uma crítica “contra religião” — é uma crítica contra uma religião que deixa de ser Evangelho e vira anestesia social. Isso mexe com qualquer pessoa que leva fé a sério.
A seguir, vamos entender com clareza por que essa frase é tão mal interpretada, quais são as leituras erradas mais comuns, como teólogos responderam e qual é a leitura que o próprio Evangelho sugere quando o assunto é religião, sofrimento e verdade.
Três leituras erradas muito comuns
Existem pelo menos três interpretações populares que aparecem toda hora quando alguém cita “ópio do povo”. Elas parecem inteligentes à primeira vista, mas quase sempre são simplificações.
Leitura errada #1: “Marx disse isso porque odiava Deus e queria destruir a fé”
Essa interpretação é comum principalmente em ambientes religiosos. Ela transforma Marx num vilão simples: um inimigo de Deus, alguém que está atacando a igreja por ódio espiritual.
O problema é que isso ignora o contexto do texto. Marx não está escrevendo um panfleto antirreligioso no estilo “Deus não existe”. O foco dele é social: ele está perguntando qual é a função da religião num mundo de desigualdade.
Ele descreve a religião como algo que nasce do sofrimento, como “suspiro”, como “coração”, como “espírito”. Isso não é uma linguagem de puro desprezo. É linguagem de quem enxerga que há ali um fenômeno humano profundo.
A crítica dele é dura, sim. Mas é mais dura contra a realidade que produz um mundo “sem coração”.
Ou seja: essa leitura cria um inimigo simples para fugir de uma pergunta difícil. Porque é muito mais confortável dizer “Marx odiava Deus” do que perguntar:
Será que existe um tipo de religião que realmente funciona como anestesia?
Quando a igreja evita essa pergunta, ela está perdendo uma chance de fazer uma autocrítica madura.
Leitura errada #2: “Marx provou que toda religião é enganação e manipulação”
Essa interpretação é comum no lado contrário: pessoas que não têm fé usam a frase como se fosse um “argumento final” contra qualquer forma de religião.
O problema aqui é parecido: Marx não está “provando” que toda religião é falsa. Ele está descrevendo um mecanismo social onde a religião pode funcionar como consolo, alívio e também acomodação.
Isso é muito diferente de dizer que todo crente é enganado. Isso é muito diferente de dizer que todo ato religioso é manipulação.
A frase “ópio do povo” descreve uma função que pode acontecer em certos contextos. Mas quando alguém usa como se fosse uma sentença universal — “logo, toda religião é tóxica” — a pessoa não está repetindo Marx, está transformando Marx em slogan.
E isso é um empobrecimento intelectual.
Aliás, vale observar um detalhe: ao fazer isso, o crítico moderno cai exatamente no mesmo erro que ele acusa na religião — ele troca complexidade por dogma.
Leitura errada #3: “Então a religião não presta, mas pelo menos dá conforto”
Essa leitura parece mais moderada, mas também é frágil. Ela diz: “Ok, religião pode até ser uma ilusão, mas dá conforto, então deixa como está”.
Só que essa interpretação destrói o coração do argumento de Marx. Marx não está dizendo “deixa a religião quieta porque ela ajuda”. Ele está dizendo:
o fato de a religião ajudar é um sintoma de que algo está muito errado.
Ele não está satisfeito com um mundo onde as pessoas precisam de anestesia para sobreviver. Ele quer um mundo onde a ferida seja tratada.
E isso nos leva ao ponto mais forte: a frase não é apenas crítica à religião. Ela é crítica à normalização do sofrimento humano.
A resposta de teólogos e a leitura à luz do Evangelho
Agora, aqui entra uma parte que muita gente não espera: existem teólogos cristãos que concordam com partes da crítica de Marx, mas sem abraçar o ateísmo nem reduzir o cristianismo a política. E isso é importante porque mostra que a fé não precisa ser frágil diante desse debate.
O que os melhores teólogos fizeram foi separar duas coisas:
a religião como aparência (ritual sem justiça, tradição sem compaixão, poder sem serviço)
a fé como Evangelho (Cristo, cruz, arrependimento, justiça, esperança real)
Essa distinção muda tudo.
Quando teólogos concordam com Marx (sem virar marxistas)
A crítica de Marx faz sentido quando a religião:
promete prosperidade como se fosse máquina espiritual,
usa culpa para controlar,
transforma sofrimento em “virtude” para manter o pobre obediente,
coloca o céu como desculpa para ignorar o inferno social agora,
prega paz, mas negocia com opressão.
Nesse cenário, a religião realmente pode virar o “ópio do povo”: ela anestesia, consola, e impede reação.
E o Evangelho também denuncia isso.
Jesus não foi suave com a religião que se tornou instrumento de poder. Ele confrontou líderes, denunciou hipocrisia, e chamou o povo de volta para a verdade.
Ou seja: existe um sentido em que a crítica de Marx funciona como “espelho” para a igreja. Um espelho desconfortável, mas útil.
Quando Marx erra (na perspectiva cristã)
Do ponto de vista do Evangelho, Marx erra quando reduz a religião apenas a um produto social, como se toda transcendência fosse apenas reflexo da economia, como se toda fé fosse uma projeção de necessidade humana.
O cristianismo afirma algo muito diferente: que Deus não é invenção do sofrimento — Deus entra na história, se revela, chama, confronta, salva e transforma. A fé não é só consolo: é verdade, é encontro e é missão.
Mas aqui vem um ponto que separa o cristianismo maduro do cristianismo “de vitrine”:
A fé bíblica consola, sim. Mas ela não consola para acomodar. Ela consola para levantar.
Quando a fé consola para acomodar, ela vira anestesia.Quando consola para levantar, ela vira poder de transformação.
Quando a religião vira ópio… e quando vira despertar
A melhor forma de encerrar esse tema sem cair em extremismos é reconhecer que existe uma diferença entre:
✅ Religião como fuga e ✅ Religião como confronto
A religião vira ópio do povo quando ela:
oferece alívio sem verdade,
promete céu como desculpa para aceitar injustiça,
ensina passividade diante do mal,
funciona como “tapa na alma” para não encarar a ferida.
Mas a religião vira despertar quando ela:
devolve dignidade ao ser humano,
chama ao arrependimento e à justiça,
expõe o pecado pessoal e o pecado estrutural,
produz coragem moral,
transforma o crente em servo, não em consumidor.
E aqui entra uma aplicação muito atual: muita gente não abandonou a fé, mas abandonou um certo tipo de religião. Não porque odeia Deus, mas porque rejeita manipulação. E isso é um ponto que a igreja precisa enxergar com humildade.
Porque, se a religião se torna apenas uma fábrica de “alívio emocional” sem verdade e sem cruz, ela se torna frágil. E quando uma fé é frágil, qualquer frase forte vira uma bomba.
É por isso que essa frase é tão mal interpretada hoje: porque ela encosta numa ferida real. E quando encosta, as pessoas reagem com defesa ou ataque, raramente com reflexão.
A frase “A religião é o ópio do povo” é mal interpretada porque virou arma de debate — mas ela continua relevante porque denuncia uma religião que anestesia em vez de transformar.

Conclusão: afinal, por que “A religião é o ópio do povo” continua sendo tão mal interpretada?
Depois de atravessar o contexto histórico, o raciocínio original de Marx e o jeito como a internet transformou a frase em slogan de guerra, dá pra encerrar com uma constatação simples: “A religião é o ópio do povo” é mal interpretada porque virou atalho. Um atalho emocional, ideológico e retórico.
A frase funciona como uma espécie de “botão de desligar debate”. Quem a usa muitas vezes quer encerrar uma discussão como se estivesse apresentando a última palavra da inteligência. Só que isso não é reflexão — é performance. E, do outro lado, quem se ofende imediatamente com ela às vezes faz o mesmo movimento: rejeita o debate sem entender que Marx está falando de uma função social, não apenas de uma crença pessoal.
Por isso, a melhor maneira de lidar com essa frase não é com raiva, nem com idolatria intelectual, nem com defesa automática. É com maturidade.
Marx, quando fala que a religião é o ópio do povo, está descrevendo uma dinâmica real: em situações de sofrimento, injustiça e opressão, a religião pode se tornar um alívio emocional que ajuda as pessoas a sobreviver. Só que esse mesmo alívio, dependendo de como a fé é pregada e vivida, também pode virar anestesia — uma forma de tornar tolerável o que deveria ser transformado.
E é exatamente aqui que a discussão toca no coração do Evangelho.
Porque quando Jesus confronta líderes religiosos, quando ele denuncia hipocrisia, quando ele defende os pequenos, quando ele expõe a falsa piedade, ele está mostrando que existe sim uma religião que cura — e existe uma religião que adoece. Existe uma fé que desperta — e existe uma fé que entorpece.
Se a religião serve apenas para “acalmar” sem conduzir à verdade, ao arrependimento, à justiça e à compaixão, ela se transforma numa fé de anestesia. E isso é o que Marx chama de ópio do povo.
Mas se a religião conduz a um encontro real com Deus e produz uma vida transformada — que ama, serve, repara injustiças, denuncia o mal e sustenta esperança — então ela não é ópio: ela é luz.
Essa conclusão não precisa ser usada para “bater em ateus” nem para “bater em crentes”. Ela pode (e deve) ser usada para produzir discernimento: qual religião estamos vivendo? Uma que consola para acomodar ou uma que consola para levantar?
A frase de Marx continua sendo mal interpretada porque muita gente discute religião como bandeira — e não como consciência.
Se este texto te ajudou a entender “A religião é o ópio do povo” de forma mais justa e completa, faça três coisas simples:
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